Aberturas - e4e5 - Xadrez por Reinaldo Mano
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Manual de Aberturas

        Dentro da infinidade de movimentos que o Xadrez permite criar, o primeiro movimento possui a característica de ser limitado a poucas possibilidades, com um valor tangível. São 8 peões e cada um deles pode ser movido uma ou duas casas. Isso totaliza 16 possibilidades. Ainda temos dois cavalos que a partir de sua posição inicial podem ir a frente na coluna do bispo ou da torre, somando-se mais 4 possibilidades de movimento. Dama, Rei, Bispos e Torres jamais poderão participar do primeiro lance.

      Chegamos ao valor de vinte movimentos legais possíveis para o movimento das brancas e as negras por sua vez terão as mesmas vinte possibilidades de resposta. Portanto, são 400 combinações possíveis de movimentos apenas para o lance 1.

        Se considerarmos que a cada lance o número de variações de jogadas sobe num múltiplo próximo de 20, ao final do segundo movimento teremos 160.000 combinações possíveis. É impossível alguém tentar guardar na memória todas as possibilidades matematicamente possíveis após o terceiro lance, onde o número de variações atinge a casa de 64 milhões. A ordem de grandeza sobe de maneira inacreditável a cada lance. Após o quinto lance poderiamos comparar o numero de possibilidades ao equivalente a quantidade de grãos de areia em um trecho de uma praia. Após o décimo lance estamos contando o equivalente as estrelas em todas as galáxias conhecidas. Após o lance 30 as estrelas não serão suficientes e precisaremos contar os átomos no universo, um número simplesmente inconcebível a razão humana. Portanto, se jogarmos Xadrez contando meramente com a intuição ou a sorte, a chance de haver um jogo viável do quarto movimento em diante é de apenas 1 em 4 milhões.  Chega-se ao ponto onde vencer a partida é mais improvável do que ganhar sozinho um prêmio milionário de loteria, antes mesmo de sairmos da abertura. O Xadrez não pode permitir o uso da sorte para se obter a vitória.

         Apesar da possibilidades de movimento serem infinitas, existe um numero relativamente finito e limitado (apesar de grande) de linhas vantajosas para os movimentos iniciais. O objetivo do estudo teórico das aberturas consiste em podar a gigantesca árvore de possibilidades, deixando apenas os ramos bons e bonitos de serem observados e percorridos. Quanto mais soubermos bem um determinado caminho a seguir, e principalmente o que não seguir, mais robusto será o meio de jogo e por conseguinte maior será a chance de um bom final e de uma vitória. 

            O primeiro lance

          A restrição do repertório a poucas variações dos 3 primeiros lances é prática no sentido de mostrar um caminho mais seguro e fácil de ser lembrado. Se levarmos em conta os princípios estratégicos, como o domínio do centro do tabuleiro, a defesa do Rei, o desenvolvimento em grupo das peças e a manutenção da iniciativa, concluiremos que pouco mais de dez combinações de movimentos podem ser consideradas como aceitáveis para os três primeiros lances de um jogo bom, com chances de vitória. As outras possibilidades, apesar de legalmente possíveis, raramente são usadas e não devem sequer ser cogitadas pois resultam em perda de tempo.

          Fixaremos atenção primeiro no que deve ser evitado. Tudo o que sobrar serão possibilidades boas.

          A primeira escolha é entre usar um dos Cavalos ou um dos peões para a abertura. Usar o Cavalo no lance número um pode até ser correto, mas deve ser reservado aos jogadores mais experientes. Preferível posicionar-se primeiro com os peões, forçando um jogo mais previsível. Sem conhecer as noções básicas com o jogo dos peões, usar o Cavalo no primeiro lance é inútil.

          O segundo ponto que surge é, sabendo-se que moveremos um peão, quantas casas ele deve percorrer, uma ou duas? As brancas tem a prioridade do primeiro movimento. Isso determina toda a iniciativa do jogo. Forçar o centro do tabuleiro só é possível se os peões forem avançados até a 4º linha. Do contrário a réplica das negras será tomar a linha 5, posição deixada de forma gratuita pelas brancas, dando chance para as negras terem o mando dos lances. Portanto, apesar de ser uma possibilidade legalmente válida, o lance 1 das brancas na linha 3, independente da coluna escolhida é um convite as negras tomarem a iniciativa e dominarem de início o centro do tabuleiro.

          O último ponto de dúvida é qual do peões? Devemos manter a noção de domínio do centro e de iniciativa para essa escolha. Abrir peões laterais no início do jogo se resume, na maioria das vezes, em perda de tempo, que talvez não possa ser compensada mais tarde. É preciso ainda ter em mente a necessidade de abrir espaço para o movimento dos bispos.

          Fica claro que movimentar os peões das colunas a e h é portanto totalmente fora de propósito no primeiro lance.

         O primeiro lance ideal, portanto, usa os peões das colunas “d” ou “e”, por serem os centrais. A coluna “c” é uma opção, mas faz parte de um repertório mais avançado, devendo ser aprendido mais tarde, após 1.e4 e 1.d4 estiverem consolidados. Todas as situações explicadas possuem nomes específicos, mas como não queremos sobrecarregar o iniciante com muitos nomes, que acabam sendo apenas decorados, só serão citados mais adiante os nomes das aberturas e defesas mais consistentes para o aprendizado.

          Resumindo em três sugestões para o lance 1 das brancas:

          a) Não execute a abertura com os Cavalos. Use sempre preferencialmente um peão;

          b) Use um dos peões centrais, da coluna “d “ou “e”, excepcionalmente da coluna “c”, mas apenas depois de estar familiarizado com os peões de “d” e “e”; e

          c) Mova o peão sempre até a linha 4.

          Utilizando essa regra, das 20 possibilidades matemáticas de movimento, reduzimos para apenas três opções ideais, que na ordem de preferência para o aprendizado são: 1.e4; 1.d4; e 1.c4. Essa redução de possibilidades de lances considerados bons será a base de construção do seu repertório de aberturas. Apesar disso, após o lance das negras ainda teremos um resultado de aproximadamente 15 combinações válidas apenas para o lance 1. Apesar de ser um número grande para estudar, é bem melhor do que enfrentar as 400 possibilidades matematicamente possíveis trabalhadas de forma aleatória.

         Princípios Gerais de Desenvolvimento

           Independente da abertura escolhida todas se norteiam em princípios básicos que são mais ou menos comuns. Seja qual for o plano de jogo que resultará da abertura (se o jogo será aberto ou fechado, se o ataque será pela ala da Dama ou do Rei), todas as aberturas tem como objetivos: 1) o controle do centro e a formação de uma estrutura de peões; 2) a proteção do Rei, por meio do Roque; 3) a ativação das peças com seu deslocamento a casas “ideais” de desenvolvimento.

            Após o primeiro lance, qualquer movimento a princípio deve respeitar esses fundamentos. Mesmo sem um cálculo tático maior, a probabilidade de se fazer um lance ruim respeitando-se essas 3 regras é muito pequena.

Introdução

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          Sendo vez das negras é claro que não podemos esperar outro movimento alem da tomada do peão. Em sequencia o peão negro acabará por ser capturado por uma peça branca, reestabelecendo-se um equilibrio, mas com os pões aniquilados. Esse embate precoce, com aniquilação dos peões centrais e abertura precoce das colunas "d" ou "e" (ou ambas) cria um tipo de jogo chamado "Aberto", que é caracteristico do primeiro movimento com 1. e4 e5. 

          Alternativamente no lugar de 1.e4 podemos tentar jogar então 1.d4. Nesse caso uma grande diferença ocorre, pois não se pode jogar 2.e4 pois o peão a frente do Rei não possui a mesma proteção do peão de "d" e assim não pode se expor a captura. Uma outra sequencia de lances surge, levando agora não a um aniquilamento, mas a uma tentativa de bloqueio mútuo. Esse tipo de partida é chamada de partida fechada, pois não acontecem muitas trocas de peões ou peças nos primeiros lances. Novamente não há uma formação "ideal", mas existe a tentativa de se manter o controle das casas centrais em favor de um futuro reposicionamento ofensivo das peças.

          Assim o primeiro objetivo fundamental de uma abertura é manter um domínio sobre o centro, ou seja, controlar as casas centrais, da melhor maneira possível para cada um dos lados. Como as brancas tem o primeiro lance a tentativa branca sempre tenderá a ser mais agressiva. Negras tem muitas formas diferentes de se contrapor e cada forma dita as caracteristicas daquela determinada abertura.

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Mantenha o Rei protegido

          Apesar de não ser uma regra absoluta, em geral o ideal é sempre fazer o roque o mais cedo possível. O Rei deve permanecer no inicio do jogo fora do alcance das colunas centrais e de preferência escoltado por peças a frente da linha de peões. A estatistica mostra um índice maior de vitórias quando se faz o Roque em relação a quando não se faz.  

          No entanto a proteção do Rei não pode ser negligenciada depois de rocar, como se o roque fosse uma solução mágica. O ataque a formação do Roque deve ser prevenido e uma proteção inficaz pode resultar em derrota rápida. Sacrifícios táticos de peças contra a casa h7/h2 são temáticos e bastante frequentes. De uma forma ideal devemos sempre que possível preservar a formação de peões do roque, mantendo-os alinhados na casa inicial. Qualquer avanço, mesmo que por profilaxia do tipo h3/h6 contra a ocupação das casas g4/g5, causam enfraquecimento da estrutura do Roque e deixam ele mais vulnerável a ataques.

          No caso do grande roque é comum a necessidade do Rei se mover profilaticamente mais uma vez em direção a coluna b, afastando-se mais do centro e protegendo a linha de peões nas colunas "a" e "b".

          Iniciar um ataque sem que o Rei esteja efetivamente protegido é uma receita para o desastre.  

         As peças representam uma equipe, que deve atuar em conjunto. Não se consegue nada movendo apenas uma ou duas peças. Todas tem que participar da luta, todas se ajudando para aumentar o força do ataque. Assim, a cada lance devemos escolher sempre uma peça diferente para mover e devemos coloca-la num local que não atrapalhe o movimento da peça seguinte.

          Com isso em mente devemos sempre seguir algumas regras simples, válidas para os primeiros lances. Algumas jogadas são consideradas muito ruins para o início de jogo. 

           a) Não mova a mesma peça duas vezes seguidas. Por regra, mova peças diferentes a cada lance, num desenvolvimento harmônico e homogêneo dando vez para todas as peças, em um conjunto. 

           b) Não coloque uma peça num local que vá obstruir a passagem de outra. Por exemplo, não coloque o Bispo na frente de um peão que ainda não se moveu. 

           c) Não de xeque com o Bispo no inicio do jogo, quando o peão pode defender. A defesa com o peão é mais que intuitiva e só restará ao atacante mover novamente a mesma peça do lance anterior, quebrando a primeira regra de desenvolvimento. Esse “tempo” de movimento perdido fará falta com o decorrer do jogo.

           d) Não leve o Cavalo pela coluna “a” ou “h”. Os Cavalos tem sua força mais evidente quanto mais proximos estão do centro. Abrir o Cavalo para a coluna lateral simplesmente não faz sentido, salvo raríssimas excessões. Pior ainda, logo no segundo o lance o Cavalo em a3 ou h3 estará a disposição da captura pelo bispo adversário. Após o Bispo capturar o Cavalo ocorre a formação de peões dobrados na coluna “a” ou “h” logo no inicio do jogo. Essa é uma situação posicional considerada como muito fraca.

           e) Não mova a Dama ao início da partida. Salvo exceções muito específicas, a Dama não deve se mover nos primeiros lances. Colocá-la sob ataque precocemente geralmente termina em perda de tempo causada por vários movimentos de proteção. Aberturas que incluem a movimentação precoce da Dama serão analisadas em nosso estudo, mas exatamente por causa dessa regra, costuma-se evitar esse tipo de abertura.

Desenvolva harmonicamente as peças

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          O diagrama exemplifica os peões numa posição central "ideal", ou seja ocupando as casas d4 e e4 e por conseguinte causando pressão nas casas da linha 5 da coluna "c" até "f". Nessa situação o espaço do centro é de domínio das brancas e as peças podem se movimentar livremente apoiando aquelas posições e por conseguinte a partir do centro, podem ampliar a area de ataque.

          É claro que a figura é apenas conceitual, afinal temos de permitir que as negras joguem. No proximo diagrama observamos apenas os peões após 1.e4 e5; 2.d4.

          O "Centro ideal" é um conceito teórico de função didática, pois na prática dificilmente conseguimos construir essa formação sem que o adversário imediatamente a destrua ou bloqueie.

 O conceito de "Centro Ideal" e jogo "Aberto" e "Fechado"